Análise: Filme Balzac e a Costureirinha

BALZAC E A COSTUREIRINHA – Dai Sijie – 22/07/2008 –
Encontro de Professores da Rede Pública – Xanxerê – SC
Anfiteatro da Unoesc Campus de Xanxerê

- Agradecimentos pelo convite.

Neste encontro tão peculiar e tão especial, quero fazer alguns comentários sobre a plasticidade do filme e suas questões estéticas, as quais venho estudando em minhas pesquisas e que sempre foi uma característica importante em minha vida como artista plástica e como professora.

1. As tomadas realizadas pelo cineasta, em sua maioria, torna o filme belo e suave, centrado no sentido humano da vivencia entre todos naquela aldeia.  Em enquadramentos de rosto mais acentuados do que os planos gerais do ambiente ele evoca uma iluminação barroca – com poucas luzes. A iluminação leve, fazia com que aparecessem mais as sombras, ou seja, alguns pontos eram iluminados, e haviam muitas sombras, estas, provocando maior reflexão, contrário ao Iluminismo do séc. XVIII ou o cartesianismo, que tudo expunha, e procurava explicar pelo aspecto racional, não deixando as sombras da sensibilidade se expressarem.  As sombras provocam mais intimidade e dramaticidade, abrandadas pela linguagem simples dos diálogos, o que tornava a visibilidade leve e agradável. A aposta na sensibilidade do cineasta e autor leva a profundos questionamentos do comportamento individual e grupal em sociedade, tão bem colocados no roteiro.  A luz elétrica não era utilizada, estamos na segunda metade do século XX.  O cinema, como obra de arte, nos diz muito sobre a experiência estética que tanto instiga o indivíduo, e que este, insiste em querer dizer que não a compreende, escondendo de si mesmo, que ela nos revela algo de cotidiano, de reconhecível e estranho ao mesmo tempo, recusando sua compreensão.

Para compreender a obra de arte, me fundamento no filósofo alemão Hans Georg Gadamer (1900-2002), na fenomenologia e hermenêutica, esta última, consiste na ciência da interpretação e da compreensão.  “A hermenêutica é a arte de explicar e transmitir por esforço próprio da interpretação o que, dito por outro, nos vem ao encontro na tradição, sempre que não seja compreensível de um modo imediato”.  Segundo Gadamer (2006), “A obra de arte diz algo a alguém, não somente como um documento histórico diz algo ao historiador: ela diz algo a cada um, como se o dissesse estritamente a ele, como algo presente e simultâneo.[...] Tem que ser integrada na compreensão que cada um tem de si mesmo. [...] A hermenêutica revela a estranheza do espírito estranho, quer dizer também a percepção do que a obra nos diz”.  A obra de arte diz muito mais do que está escrito declaradamente quer por letras, imagens ou sons; é preciso deixar que ela fale, se quisermos compreende-la.  Quando nos deparamos com uma obra de arte, seja ela um livro, um filme, um quadro, uma escultura, uma música, um monumento, nos provoca a uma interpretação, uma reflexão, que muitas vezes nos é mais favorável não ver, não sentir, não ouvir, porque revela nosso mundo a nós mesmos, por isto é mais fácil não querer parar para pensar.  Geralmente esse tipo de filme é vulgarmente chamado de “filme chato”, porque não tem ação, não tem a dinâmica hollywoodyana comercial.  Esse tipo de filme nos soa estranho, achamos que não vamos compreende-lo, ou que é muito demorado, porque as cenas são escuras, as falas são breves, as tomadas são lentas, e neste mundo em que vivemos, tudo precisa ser rápido, de fácil compreensão, que não tome muito tempo de nossas vidas. Ah, logo a arte, que é tão dispensável, afinal não estamos produzindo nada de útil ao ver um filme ou ao ler um livro, visitar uma exposição de artes visuais! 

A experiência estética pode se dar também na cozinha, na costura, na jardinagem, em sala de aula, na missa, na viagem, em qualquer lugar onde estejamos inteiros e com o firme propósito de fazer bem feito! Como diria Ivone Richter, os “fazeres especiais”. Tudo o que fizermos com dedicação, amor, planejamento, pesquisa, pode nos oferecer uma experiência estética, e a outros que convivem conosco também.

A intenção do cineasta e escritor Daí Sijie em sua obra interessa muito, mas muito mais interessa a compreensão que cada um de nós obteve do filme, ou seja a experiência estética visual, sonora e escrita que o filme nos proporcionou. 

Como nos diz Gadamer (2006, p.62):  “A intimidade com que nos afeta a obra de arte é, em sua vez, de modo enigmático, estremecimento e desmoronamento do habitual. Não nos diz somente “esse é você” que se descobre em um horror alegre e terrível. Também nos diz: ‘Haverás de mudar tua vida!”.  E foi exatamente o que ocorreu com a Costureirinha e seu avô. Ambos, escutando as histórias dos livros que Lu e Mo liam para eles.  Ela, ampliando sua curiosidade que já era inata, fazendo-a refletir sobre sua própria vida e tomando atitude para que sua vida melhorasse. Isso me lembra Fernando Pessoa que se não me engano, fala que não se é do tamanho da aldeia que se vive, mas do tamanho que se vê a si mesmo dentro dessa aldeia.  A percepção sobre si mesma, como mulher, se amplia, a partir das gravuras ou desenhos que ela encontra nos livros, descobrindo também sua sexualidade no convívio com os rapazes.  E nas imagens que o cineasta passa no filme, a experiência estética se torna mais sublime, pela forma com que ele mostra as imagens, tecnicamente falando, com o propósito de nos envolver, também nossa percepção, nas descobertas da Costureirinha.
Da mesma forma, seu avô, mesmo relutando em não experienciar a arte ao ler os livros(como a maioria de nós, perdidos em nosso orgulho), ficou entusiasmado e encantado com as histórias contadas pelos rapazes a serem “reeducados”, e também seu “fazer especial” como alfaiate, se transformou. A criatividade tomou conta de suas obras de arte com as roupas.  Ampliaram-se os mundos da Costureirinha e seu avô.  Os outros habitantes da aldeia, ao ouvir as histórias dos filmes, e as músicas interpretadas ao som do violino, também reconheceram o prazer proporcionado pelo conhecimento da Arte e sua experiência. Ao encontrarem-se com a obra de arte, encontraram a si mesmos, e tiveram a humildade de revelar sua falta de conhecimento e seu medo, que se transformaram em aquisição de outros mundos, enfrentamento do estranho e reconhecimento deste que aos poucos ficou familiar e oportunizou a expansão de seus pensamentos e de suas vidas.
    Esta é a proposta da arte – identificar um mundo e projeta-lo para o futuro, vivendo a experiência do encontro que ela pode provocar hoje, agora em cada um de nós.  O cinema é uma dessas artes.
 

 

2. As cores das camisas dos protagonistas do filme produziam um destaque entre todos os participantes daquela aldeia, geralmente em azul, vermelho e branco, sendo as roupas dos demais em cores pastéis. 

3. Os aspectos técnicos são rigorosamente estudados pelo cineasta, para imprimir sua identidade na obra por ele produzida.