32" />
PT/EN

-Voltar

A Arte e o Movimento Pós-humano

27 de julho de 2018

A ARTE E O MOVIMENTO PÓS-HUMANO

 

Experiências como a dos Bodyhackers, que implantam metais e imãs nas mãos e na cabeça para se tornarem corpos-máquinas, e a ousadia do artista grego-australiano Stelarc, que implantou uma orelha no próprio braço em 2007, populares no meio artístico, apontam para um novo mundo, de integração entre o corpo e as tecnologias. Esse passo, pode ainda não ser percebido pela maioria da população, mas já é largamente discutido na academia, na ciência, nas artes e na filosofia. Tanto que a filósofa norte-americana Donna Haraway propõe que (Manifesto Ciborgue, 1985) nos reconheçamos como ciborgues.  E, ao mesmo tempo, trazem para essa nova abordagem, questões como aspectos do humanismo relevantes ao pós-humanismo, entre os quais, a fala/escuta do Outro, é objeto de minha produção artística recente: “Vendem-se Infâncias”. Diante disso, surgem à mente, duas perguntas: Por que pós-humano? O humano está extinto?

Como primeira noção de pós-humano pode-se definir como um campo amplo de estudos, incluindo a robótica, nanotecnologia e bioética, considerando todas as relações, ações, atividades e comportamentos possíveis entre os seres e tecnologias (Santaella, 2010; Ferrando, 2012). Em linguagem jurídica, este atual estado de ser e estar denomina-se os “novos direitos” (Wolkmer, 2003), a partir de questionamentos advindos da indústria virtual, biogenética, bioética, conceito de autoria, entre outros.

Dentre um dos pesquisadores que estudam a integração quase perfeita entra a identidade humana e tecnológica, é o cientista Dr. Kevin Warwik (Universidade de Reading, Inglaterra) que faz experiências de implante de chips no cérebro e no braço humano (no próprio cientista). Para ele, já há uma adaptação entre corpo e tecnologias, com os implantes como marca-passos, cocleares e pernas mecânicas, já realizados em seres humanos; para Warwik, isso significa uma adaptação perfeita entre tecnologia e corpo humano.

                Uma segunda noção, conexa com a primeira, determina como pós-humanismo um movimento cultural, produto da pós-modernidade, que permite reconhecer a relatividade e instabilidade da ciência, da economia, da sociedade como um todo; e ainda, questionam a interpretação transcedental de mundo e o antropocentrismo, ou seja, a supremacia do homem no universo (Sorgner e Grimm, 2012).

No contexto da arte brasileira neste movimento pós-humano pode-se incluir artistas como Eduardo Kac, brasileiro residente em Chicago (EUA) e a artista pesquisadora Diana Domingues. Ambos, artistas e teóricos da arte como interação tecnologias/ser humano, (bio) tecnologias/seres vivos. Eduardo Kac  inquietou o mundo com sua obra "GFP Bunny" (2000), que incluiu a criação, através de engenharia genética, de uma coelha com GFP (proteína fluorescente verde), que com determinada luz, brilha como neon. Já a artista Domingues, em sua obra “Our Heart" (work in progress) oferece imersões em um coração virtual comandadas em tempo real pelos batimentos cardíacos de uma pessoa que entra na sala com uma interface acoplada no corpo, e esses batimentos são convertidos em imagens de paradigmas computacionais.

Mais do que discutir as tecnologias e suas possibilidades, os artistas citados sugerem o pensar de alteridade, biodiversidade e ampliação do campo perceptivo entre outros.

Propõe-se neste ensaio analisar outro olhar sobre a filosofia/movimento pós-humano, revendo o sentido da Arte Social, procurando ir “além” do que comumente se denomina “arte, social e humano”. A Arte Social é conhecida como “Socialização da Arte” (Canclini, 1984); “Arte Engajada e globalização” (Lucie-Smith, 2006); e o artista Joseph Beuys (1921-1986), propôs esta atitude social como “Escultura Social”. É importante esta definição, pois a arte social tradicionalmente implica uma defesa política (Lucie-Smith, 2006), e pretende-se aqui, neste ensaio, agregar o ser humano social ao seu lugar de direito social comum.

 O fato de a filosofia pós-humana questionar a supremacia humana sobre os seres vivos, animados e inanimados, faz pensar que esta seria pertinente, por um lado, a espaços geográficos e políticos, nos quais os humanos possuam seus direitos fundamentais atendidos.  Por outro lado, contiguamente a um cenário pós-moderno e pós-humano, o Brasil está distante de, sequer, ter atendido aos direitos fundamentais dos humanos.  Assim, como pensar uma arte e estética da pós-humanidade sem levar em conta o estado de carência e a vulnerabilidade de crianças em várias partes do mundo, incluindo o Brasil?

Proponho a reflexão sobre uma atitude pós-humana voltada à FALA/ESCUTA do Outro: de vidas de crianças em vulnerabilidade social, educacional, habitacional, afetiva e cultural, a partir do título de minha produção artística recente: “Vendem-se Infâncias”. Enxergar e ouvir a infância que é violentada, amordaçada, cegada; é uma infância privada de muitos direitos fundamentais. Não existe possibilidade de reparação à infância que é trocada por maturidade precoce, distúrbios emocionais, problemas cognitivos ou a própria vida.

A produção artística “Vendem-se Infâncias” é composta de seis vitrines em vidro. A designer Bianca Vicini Bonotto criou uma identidade visual para a “venda” das infâncias. Dentro destas vitrines, há crianças-adolescentes-pinturas que estão protegidas por isopor (mantém o calor) e tecido macio (para que não se machuquem). As infâncias expressas em tinta podem parecer formas de pequenas esculturas, recortes. Elas são a infância de ontem e de agora. Essas infâncias das vitrines são felizes e estão protegidas.

Diante das vitrines, o público precisa se abaixar na altura das crianças para visualizar, para enxergar melhor as crianças-adolescentes-pinturas. Não basta “ver” as infâncias, mas apropriar-se de sua existência. E quando nos apropriamos não há espaço para a alienação (Ricoeur, 2008).

 Há uma nova estética/filosófica da arte, da relação entre seres vivos e meio ambiente, do comportamento social e do Direito, em consonância com pesquisas e recursos tecnológicos, biotecnológicos e genéticos. Proponho que esta estética possa voltar-se também ao pós-humano social, a favor de vidas com melhores condições de ”ser” pós-humano, cumprindo os Direitos Fundamentais às crianças e aos adolescentes do século XXI: Vendem-se Infâncias.

A FALA/ESCUTA do Outro, de sensibilização ao Outro que busco neste movimento, tem relação com as “falhas humanas” que podem ser revistas neste momento pós-humano: ausência de direitos sociais. Isto porque a percepção metodológica pós-humana pretende não segregar ou hegemonizar (Ferrando, 2012), entre minorias ou maiorias sociais, mas, sim, as vê como integrantes desse universo, com direitos e diferenças, evitando a segregação (racial, feminista, etc.) que afasta seres humanos, seres vivos, tecnologias, e o universo entre si e a nós mesmos.

 

Este ensaio completo será apresentado na 6th Conference of the Beyond Humanism Conference Series – Posthuman Politics, em Mytilini, Grécia, em Setembro/2014. Magda Vicini é artista plástica, professora da Unoesc Xanxerê. É Doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Magda já apresentou um artigo na Vª Conferência em Roma, em setembro de 2013. É autora do livro: “Arte de Joseph Beuys: pedagogia e hipermídia” (Ed.Mackenzie, 2006).

 

 

 

54>32