A POÉTICA NA OBRA DE MAGDA VICINI
Sandra M. Abello
A arte contemporânea tem se caracterizado por deslocar o olhar do espectador
para aquilo que, no cotidiano, costuma passar despercebido. Ao valorizar o singelo,
o efêmero e o aparentemente banal, muitos artistas propõem uma experiência
estética fundada na atenção, na pausa e na sensibilidade. Nesse contexto, a
produção da artista Magda se destaca por construir uma poética visual que
convida o observador a rever sua relação com o mundo ao redor.
A partir de enquadramentos precisos e escolhas formais rigorosas, Magda
direciona o olhar para elementos comuns da natureza e do ambiente cotidiano,
transformando-os em objeto de contemplação. Sua obra não se limita ao registro
de imagens, mas propõe um exercício de percepção no qual o espectador é
instigado a desacelerar e a reconhecer a potência estética do simples.
A obra de Magda ultrapassa o campo meramente estético e se firma como um
dispositivo de reflexão sobre o olhar e a experiência cotidiana. Ao partir da
valorização da experiência cotidiana e do olhar sensível, seus recortes visuais
constroem uma narrativa poética que ressignifica o comum e devolve ao
espectador a capacidade de ver.
Nesse sentido, sua poética dialoga com a ideia de que a arte contemporânea
desloca o olhar para aquilo que é invisibilizado pela rotina. Ao transformar o banal
em objeto de contemplação, a artista rompe com a lógica da espetacularização e
propõe uma experiência estética baseada na atenção, na pausa e na escuta do
comum. Ao posicionar o olhar do observador no mesmo nível do objeto, Magda
rompe com hierarquias visuais tradicionais e propõe uma experiência de encontro
entre sujeito e mundo. Além disso, ao trabalhar com enquadramentos que alternam
entre o macro e o micro, conduz o observador do panorama ao detalhe,
expandindo a experiência perceptiva.
Essa abordagem pode ser compreendida à luz do pensamento de Jacques Derrida,
especialmente no que se refere às noções de rastro e de deslocamento do sentido.
Para Derrida, o significado nunca está plenamente presente, mas se constrói a
partir de ausências, vestígios e diferenças. Assim, ao destacar o que normalmente
permanece à margem do olhar — o cotidiano, o banal, o mínimo —, Magda opera
uma espécie de desconstrução do visível, fazendo emergir sentidos onde antes
havia apenas indiferença.
Em diálogo com Gaston Bachelard, observa-se que sua obra reafirma a dimensão
poética do espaço e da experiência sensível, na qual o detalhe e o íntimo assumem
papel central, consolidando-se como uma contribuição relevante para o debate
contemporâneo sobre o olhar e o cotidiano.
Nesse gesto, desloca-se também a noção tradicional de centralidade: o que antes
era considerado periférico ganha protagonismo, e o que parecia evidente revela
camadas invisíveis à observação apressada. O olhar deixa de ser dominador e
passa a ser relacional — um olhar que dialoga com a materialidade, com o tempo e
com o contexto da obra. Essa articulação evidencia como a percepção é construída
culturalmente, atravessada por hábitos visuais, expectativas e convenções.
Assim, a proposta de Magda tensiona os modos tradicionais de ver e interpretar,
sugerindo que toda visualidade é também um posicionamento ético e político. Ver,
nesse contexto, é assumir responsabilidade diante do mundo sensível. A arte
contemporânea, então, não apenas apresenta imagens, mas produz experiências
que questionam nossos regimes de visibilidade e ampliam nossa capacidade crítica
e sensível de perceber o real.
Referências
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1991.
DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973.