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Vendem-se Infâncias

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Acrílico sobre isopor e soft

Vidro

O que nos anos 60 chamávamos de "Arte Engajada", acompanha a trajetória dessa artista de Xanxerê (SC), que de pinturas e instalações, transforma-se agora em uma exposição de vitrines de infâncias. Mas a reflexão sobre a arte e a infância está além da compreensão literal do título desta exposição: "Minha preocupação em relação ao "ser" humano deu-se a partir da constatação, desde a minha infância, das diferenças culturais entre os grupos humanos, habitantes locais. Tratava-se naquela época, da percepção sobre a forma pela qual os índios Kaingangues e Guaranis eram vistos por nós, imigrantes italianos, alemães, poloneses e portugueses. A partir dessa percepção, minha arte foi crescendo em direção ao questionamento sobre a realidade vivida em meu contexto, e, aos poucos, buscando uma compreensão e ação voltada à pesquisa científica na arte".

A identidade visual da exposição foi criada pela designer Bianca Vicini Bonotto, que apresenta convite, cartaz, tags e etiquetas com uma composição que reflete em cores e formas o universo infantil proposto pela artista Magda.

Esta exposição denominada "Vendem-se Infâncias", propõe ao adulto, posicionar-se na "altura" da visão infantil, a qual está fisicamente em altura menor do que a visão do adulto; mas este "abaixar-se" à altura infantil também propõe ao adulto sensibilizar-se a partir de suas próprias memórias, sobre a importância da infância na vida de todos os seres humanos, quer sejam infâncias felizes, infelizes, instáveis, seguras, alegres e infâncias tristes. Uma parcela da população consegue passar por essas infâncias, mas alguns não conseguem, sofrendo alguns tipos de violência. E a infância não volta mais... não podemos "comprar infâncias" e as crianças e adolescentes não podem ser roubadas nesse direito, pela falta dos direitos sociais como habitação, saúde, educação, infraestrutura, proteção e atenção. A artista propõe refletir o posicionamento dos adultos e pretende sensibilizá-los sobre a importância dos direitos sociais para crianças e adolescentes que não merecem sofrer pela ausência política e social.

Magda Vicini traz uma pintura que saiu da tela, não pode mais pertencer à tradição. A tinta acrílica se materializou em formas de pinturas livres. Sua arte fala de crianças e adolescentes: algumas fisicamente perfeitas e outras com algumas deficiências (?). Mas todas estão protegidas no espaço da exposição, por vitrines de vidros, tecidos suaves e macios que fornecem calor às imagens a partir da qualidade isolante do isopor que é a base principal para as pinturas. Essas infâncias estão protegidas, como precisa ser o cuidado com o Outro: as crianças e adolescentes em todas as classes sociais. Essas infâncias expressas em tinta podem parecer formas de pequenas esculturas, recortes, as quais podemos proporcionar um local e um espaço adequado para se desenvolver e crescer.

Na proposta da exposição, a artista coloca as infâncias em uma vitrine como joias raras a serem cuidadas, lembrando a todos nós, o quanto devemos, nós brasileiros, cuidar dessas infâncias tão violentadas (sexualmente, psicologicamente, fisicamente e moralmente) diariamente, conforme as notícias em jornais, revistas, livros e sites. Nas "pinturas", as etnias das crianças e adolescentes brasileiras estão identificadas claramente nas cores de pele branca (rosácea), negra, morena, e amarela, em linhas de tinta que sugerem ingenuidade, alegria, brincadeira e felicidade; mas também preocupação, tristeza e solidão, em um paradoxo da existência humana. Magda propõe que transcendamos realisticamente a noção de arte e infância direcionando seu desejo de que a Arte no conceito de pós-humanidade no Brasil, esteja relacionado com o ver, sentir, pensar e agir para além do humanismo: uma Arte pós-humana humana.

Trata-se de uma exposição-conceito, na qual o conceito está acima de qualquer proposta, sendo que as infâncias somente serão vendidas a quem pagar o "preço" expresso nos tags de cada vitrine, ou seja: o direito à proteção e carinho, direito à habitação e aconchego, direito à vida e alegria entre tantos direitos fundamentais garantidos em nossa constituição.

Os tecidos que envolvem os expositores serão doados pela artista para servirem de proteção e aquecer crianças e adolescentes de uma organização não governamental.